Diretor: Ben Stiller
Roteirista: Helen Childress
Atores Principais:
Winona Ryder – Lelaina
Ethan Hawke – Troy
Ben Stiller – Michael
Janeane Garofalo – Vicky
Steve Zahn – Sammy
CONTÉM SPOILERS
“Caindo na Real” tem a pretensão de ser um retrato fiel dos recém formados da faculdade nos anos 90. Consegue ser apenas superficialmente. Não tem como negar, a trilha sonora é recheada de sucessos da época, as roupas, os vídeos “edgy” da MTV, bandas grunge tocando no subsolo de pequenas boates alternativas, até o cabelo do Ethan Hawke é ensebado no estilo Kurt Cobain. Mas, fica por aí. A estrutura do filme segue a fórmula da comédia romântica. Quem ainda suporta ver a velha historinha do casal central brigando e se odiando no decorrer de 90% do filme, para depois descobrirem que estão diante do amor de sua vida? No universo da comédia romântica, todas as picuinhas, as ofensas, as mentiras são perdoadas quando, no final do filme, um dos personagens faz uma declaração de amor comovente e sincera, e o outro se emociona e se esquece de tudo de ruim que aconteceu. Os dois se beijam e juram que tudo vai ficar bem. Pronto, final feliz.

Em contrapartida, Michael (Ben Stiller) é o vilão mais gente boa da história do cinema. Não entendi porque a Winona não o escolheu logo de cara, uma vez que ele supera e muito o nosso “mocinho”, Troy. Michael é consistentemente gentil e carinhoso, é esforçado no trabalho, ganha bem, tem carro, leva-a para jantar e, aparentemente, não tem problemas de cama (isso com base numa cena dos dois na casa dele, de manhã. Ela está toda animadinha e sorridente). E mais, Michael, super bem-intencionado, tenta dar um empurrão na carreira de Lelaina, mas o tiro sai pela culatra. Ele não tem culpa, mas, mesmo assim, tenta consertar seu “erro” e humildemente pede desculpas! Promete que vai tentar de novo, só que agora tudo vai ser do jeito dela. Ela que manda. Oh! Que horror! Que vilão! É óbvio que ele não merece o perdão de Lelaina. Nunca que um monstro desse pode ficar com a mocinha no final. Honestamente, sem exageros, vocês sabem quais são os quesitos nos quais Troy supera Michael? Troy é mais articulado e tem mais referências culturais. Só.
Ironicamente, os dois únicos personagens interessantes do filme são os que têm menos tempo na tela. Janeane Garofalo tem a incrível capacidade de sempre subir o nível de um mau filme. Por mais banais que sejam, ela reveste todas as suas falas com inteligência e um humor fino, sarcástico. Steve Zahn, eu sou suspeito, porque sempre fui fã dele. Os conflitos pelos quais Vicky e Sammy passam chamam muito mais a atenção do que o lenga-lenga, o fica-não-fica dos protagonistas. Ela enfrenta o terror que é a suspeita de ser soropositiva, ele o pavor de não ser aceito pela mãe por ser homossexual. Vicky e Sammy definitivamente mereciam mais desenvolvimento, mas aí, o filme sairia da fórmula.
Sempre me pergunto o porquê de todo roteiro de comédia romântica estar necessariamente encaixado na mesma fórmula. Será que o estúdio não paga se não estiver? Só pode ser, porque não é maioria das romcoms, TODAS têm exatamente a mesma fórmula. É uma pena que “Caindo na Real” seja mais uma, pois trata de um assunto relativamente pouco explorado no cinema: as dificuldades de inserção no mercado depois da faculdade, especialmente se você faz questão de trabalhar na sua área. Nesse ponto, a película é válida, embora apenas toque na ponta do iceberg. Afinal, é preciso ter em mente que Helen Childress tinha apenas 19 anos quando finalizou seu roteiro. O diretor tinha 29. É um fato raro na história do cinema – um filme feito para jovens, escrito e dirigido por jovens. O que não me impede de pensar em como o filme seria melhor se Ben Stiller o dirigisse hoje, fora do circuitão dos grandes estúdios, já com seus 46 anos.
Menção: FR
Link no imdb.