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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

LIXO EXTRAORDINÁRIO (WASTE LAND)

Ano de Produção: 2010
Diretor: Lucy Walker
Co-diretores: Karen Harley e João Jardim

Estrelas Principais:

Vik Muniz
Tião (Sebastião Carlos dos Santos)
Zumbi (José Carlos da Silva Bala Lopes)
Suélem (Suélem Pereira Dias)
Ísis (Ísis Rodrigues Garros)
Irmã

Lida a sinopse de “Lixo Extraordinário”, logo pensei: esse vai ser um daqueles documentários sobre a realidade dura da pobreza, durante o qual choca-se e chora-se de cinco em cinco minutos. Até comentei (com o tom meio irônico) com a Amanda o fato de Moby ter feito a música do filme. “Sem dúvida que ele ia se envolver nesse filmes ecológicos, pró-reciclagem, pró-natureza.” Como discípula de Gaia, a Mãe-Terra, Amanda ficou muito brava. “Nem começou o filme e já tá com preconceitos! Depois reclama que seu gosto é considerado mainstream!” Depois de pedir as devidas desculpas, apertamos play.

Visto o filme, ele é mesmo um documentário sobre a realidade dura da pobreza, durante o qual choca-se e chora-se de cinco em cinco minutos. No entanto, é um ótimo filme. Até a marca dos vinte minutos, a película parece ser uma propaganda do trabalho do artista Vik Muniz, que, segundo ele mesmo, é o artista plástico brasileiro de maior destaque no exterior. Inicialmente, fiquei um pouco ressabiado com sua idéia de visitar o Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, o maior lixão do mundo, e engajar os catadores de lixo reciclável no seu trabalho artístico. Perguntei a mim mesmo se ele não ia dar uma de Sebastião Salgado, ou seja, tirar lindas fotos dos pobres e miseráveis, fazer um dinheirão com elas e ir embora tranqüilo, enquanto os modelos continuam lá, na mesma terrível situação.

Ledo engano. Feito o primeiro contato com os catadores “escolhidos”, ou melhor, os “fotografáveis”, o filme se eleva incrivelmente, pois seu foco sai do Vik Muniz e passa a se centrar nessas personalidades. E que personalidades! Apesar da convivência diária com a extrema miséria e repugnância do ambiente em que trabalham, eles demonstram uma grande capacidade de alegria e um alto grau de auto-respeito e de orgulho de seu trabalho. Eles repetem a mesma frase diversas vezes durante o filme: “Eu trabalho aqui porque eu não quero ser traficante, prostituta, mendigo, etc.” A minha personagem favorita é a cozinheira do lixão – a que todos chamam Irmã. Por pura bondade no coração, ela vai até lá, no meio da lixarada e do chorume, e faz o almoço dos catadores, utilizando carne e vegetais rejeitados, porém ainda na sua data de validade. O impressionante de Irmã é sua capacidade de síntese em frente à câmera. Sem instrução formal, ela resume a sua condição, seus problemas, suas aspirações com brilhantismo e sem nenhum traço de autocomiseração. E que rosto forte, fantástico! A sua foto ficou fenomenal, de perfil, com um saco de lixo equilibrado na cabeça.

Há a questão da proposta de trabalho do Vik. Ele e seu fotógrafo assistente tiram fotos dos catadores, as ampliam gigantemente no chão de um galpão através de um projetor e, em cima dessa projeção, os catadores acrescentam materiais sobre os traços das fotos, tudo sob a supervisão e orientação de Vik Muniz. Esses materiais (recicláveis) são todos provenientes do lixão do Jardim Gramacho. No fim, tira-se uma nova foto da foto original, acrescentada artisticamente de lixo. O resultado final fica muito bonito, especialmente a inspirada no “Marat”. É interessante notar que os catadores modelos convocados para trabalhar com o Vik gostam tanto da experiência que não querem mais a labuta no lixão. O orgulho pessoal de se tornar objeto de arte e de simplesmente trabalhar num ambiente sadio e criativo é suficiente para dar-lhes uma nova concepção de si mesmo. E essa nova identidade não permite mais a volta ao mundo do lixo, principalmente depois de verem suas fotos exibidas como obras de arte no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Isso comprova a conclusão de que não só a sociedade mas também o próprio catador associa a sua imagem com o seu material de trabalho, o lixo. A impressão inicial de que é possível ser feliz como catador de lixo no Jardim Gramacho se desfaz quase que completamente. Com a exceção de nossa querida Irmã, nenhum dos modelos volta ao trabalho no lixão. É nesse ponto que o meu receio inicial se desfez. Vik Muniz se recusou a desempenhar o papel predatório do artista inescrupuloso que deixa seus modelos pobres na mão. O artista leva Tião, um dos escolhidos e presidente da Associação dos Catadores de Jardim Gramacho, a Londres para vender sua foto num leilão. Questionado por sua própria esposa – “Você acha justo levar o Tião e apresentá-lo a um novo mundo, para depois ele voltar à sua vida miserável na “Waste Land”? – Vik Muniz defende que a escolha de ir ou não é do próprio Tião e ainda diz mais: “Eu, como ex-pobre, aceitaria o convite sem pestanejar, mesmo ciente de que teria de retornar à mesma vida de antes.” Concordo. E a visita valeu à pena. A foto foi vendida por vinte e cinco mil libras, cerca de cem mil reais. Vik reverteu tudo de volta a seus fotografados.

O que se pode comentar como ponto fraco do filme não me incomodou muito. Compreensivelmente, os personagens se emocionam e choram muito em várias situações – quando contam suas histórias do passado difícil, quando se vêem como obra de arte, quando descobrem por quanto suas obras foram vendidas... A grande quantidade de depoimentos dramáticos é até esperada e inevitável num filme desse tipo. As vidas das pessoas retratadas passam por uma verdadeira revolução. È natural que haja um rio de lágrimas a cada etapa vencida. Afinal, eles conquistaram algo que muitas vezes se leva uma vida para se conseguir: a auto-estima de volta. Em entrevista a Jô Soares, Tião faz a declaração definitiva: “Desculpa te corrigir, Jô, mas eu não sou catador de lixo. Sou catador de material reciclável. É diferente.”

Menção: O

Link no imdb.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

MINIREVIEW – TROLLHUNTER (TROLLJEGEREN)

Year: 2010
Director: André Ovredal
Screenwriters: André Ovredal and Havard S. Johansen

Main Cast:

Otto Jespersen – Hans, the Trollhunter
Glenn Erland Tosterud – Thomas
Johanna Murck – Johanna
Tomas Alf Larsen – Kalle
Urmila Berg-Domaas – Malica
Hans Morten Hansen – Finn Haugen


The Blair Witch Project
Cloverfield
The Stunning Norwegian Landscape
Rabies
U.V. Lights
Beautifully Designed Fucking TROLLS!














Grade: A

Link at imdb.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

NEVER LET ME GO

Year: 2010
Director: Mark Romanek
Screenwriter: Alex Garland

Main Cast:

Carey Mulligan – Kathy H
Andrew Garfield – Tommy D
Keira Knightley – Ruth
Charlotte Rampling – Miss Emily
Sally Hawkins – Miss Lucy
Nathalie Richard – Madame

Please, do me a favor and watch “Never let me go” before reading this review. Or don’t, because this movie is not for the weak of heart. I’m making a point of telling you to watch the film first, because, though it’s always a good idea to see the films and read my reviews later, this time it’s essential to be surprised in order to fully appreciate this one.

When I woke up at 5:30 this morning, I realized this was a horror film, without the scares and the thrills. It haunted me; I couldn’t go back to sleep. There is a beautifully moving love story in it, its narrative style, its pace, the quality of its acting, everything points to classical drama, but make no mistake: we’re talking about the Horror.

The movie is set in England, its timeline spans from the 70s to the 90s, but it’s an alternate reality. In this reality, humanity found the cure to all diseases through organ donation and cloning. Our three main characters live in a boarding school, from which grounds they can never go beyond. They don’t seem to have a family of their own; they never talk about parents or brothers and sisters. Their health is very well taken care of – their diet is strict and they play sports on a daily basis. This is so, because they are clones. Their only purpose in life is to grow up healthy and donate their organs until they “complete” (die). The school is nothing more than a farm, where they graze like cattle. They are not people, they are “Donors”.

We only find about that in the middle of the movie, which is quite a shock. Up until then, they are portrayed as completely normal kids. They fight, they make art, fall in love, just like everybody else. It’s one of the movie strengths. When the entire scheme is revealed, we are not ready for it. Very disturbing stuff and the worst is still coming.

The fact that clones are very human is exemplified by Kathy, Tommy and Ruth. Kathy and Tommy fall in love when they are around 10 years old. Ruth, Kathy’s best friend, senses that very clearly and envisions a long happy relationship for them. She can’t stand that. Before Kathy and Tommy have a chance to get together, Ruth intervenes and “seduces” him (I don’t know if you can apply this term to a 10-year-old girl). They stay together for years. When they reach the age of 18, they are sent to the “Cottages” (perhaps a word game with “College”). There, Kathy is still very much in love with Tommy, but he is being tightly kept by Ruth through the diligent use of sex. There are no more classes or teachers or sports; they just wait. Eventually, frustrated by the possibility of never being able to fulfill her dreams, Kathy decides to apply for a “Carer” position. She leaves the Cottages to travel around England and take care of the Donors. Of course, after she goes, Ruth breaks up with Tommy.

In short, before the film starts showing the donors’ daily routine in hospitals and health care facilities, it’s made clear that the characters go through the most human emotions like jealousy, envy, competitiveness, frustration, unfulfilled longings, uncontrollable sexual drive and, most importantly, love. Tommy and Kathy have loved each other since childhood and will always do.

It made me wonder: what a grim perspective of humankind. We are dealing with the idea that, since we don’t want to get sick ever again, we are raising clones – who are exactly like us – just like we raise cows for nourishment. Could this notion ever become reality? As an indefatigable optimist, I don’t believe so. On the other hand, if it was me, would I prefer to count on doctors, medicine and myself, and fight diseases the hard way? Would I take another life and live more than a hundred years? I honestly couldn't say for sure. Maybe I would after having seen the scenes in which the characters undergo the actual surgeries. They are quite powerful and disconcerting. The patients are treated like animals in a slaughterhouse.

Furthermore, one thing about this film really bothered me. Why do the clones accept their fate so easily? Why don’t they run away? There are a few elements in the movie that suggest possible explanations. Firstly, all the clones have to wear armbands all the time, which lead us to think they are monitored 24 hours a day by an invisible “Big Brother”. Secondly and most relevantly, in several scenes most clones show tremendous difficulty in doing things simply because they want to. It seems that they don’t understand the concept of free will, apparently because of the way they were raised. A question follows: Does one have to learn the idea of free will in order to use it? Isn’t the search for individual liberty something natural, instinctive, even if you’ve learned to resign and accept what’s given to you your whole life? What about fighting for your survival?

Again, I'm uncertain. I’m just glad we don’t live in a world like that and hope we never will.

Grade: A

Link at imdb.